a kelly tinha os cabelos lisos e loiros. os meus cabelos eram castanhos, cacheados e volumosos.
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| meus cachinhos e eu |
eu estudava em uma escola particular renomada na região. não comentei com ninguém o que havia acontecido, afinal sempre que questionava alguma coisa era obrigada a rezar na capela na companhia de alguma freira.
comecei a reparar os cabelos das minhas colegas de sala. pra começar não tinha nenhuma negra, ninguém com o cabelo crespo. cabelo cacheado e cheio, era só o meu. as outras alunas tinham os cabelos bem parecidos - loiros, castanhos, bem pretinhos -, mas sempre lisos. um menino da turma era negro e provavelmente teria o cabelo crespo, mas usava a cabeça raspada.
decidi que queria fazer franja, ser igual a todas aquelas meninas. quem sabe assim meu cabelo seria bonito? uma tia cortou minha franja e, óbvio, nem de longe fiquei parecida com as coleguinhas. a franja encolheu, se escondeu amontoada na cabeleira longa e cacheada. me senti horrorosa, tinha vergonha que as pessoas me vissem. então peguei alguns bonés da coleção do meu pai e era assim que saía, pra onde quer que eu fosse: o boné escondendo os cabelos que outrora achava tão lindos.
passei a sonhar com o dia que teria 15 anos: seria alta, magra, cabelos lisos e loiros, olhos verdes e me chamaria Adriane (bjs, prima!). assim, num passe de mágica, eu seria completamente diferente do que eu era, seria uma cópia da barbie misturada com as minhas colegas da escola e com a minha prima adolescente que eu sempre achei tão linda. os 15 anos chegaram e eu odiava meu corpo, meu cabelo, minhas feições, minha voz, meu jeito.
e falando na adolescência não posso deixar de dizer que as minhas amigas mais próximas tinham o cabelo escorridinho, "controlado". o meu definiu ainda mais os cachos, era "rebelde". a primeira vez que passei prancha (chapinha) no cabelo, lembro de fechar os olhos no salão e pedir: "meu deus, que fique pelo menos igual o da Laila, um liso ondulado já me deixaria feliz."
comecei a modificar meu cabelo com frequência: pintar, escovar, pranchar, alisar, passar química, progressiva, o que viesse. já foi de vários tamanhos, cortes e cores, mas uma coisa permanecia igual: eles ficavam lisos. muita gente nem sabia que na verdade meu cabelo era cacheado (e eu preferia assim).
então eu engravidei. e aí não podia mais alisar meu cabelo com química. comecei uma guerra com a escova e a chapinha - morria de cansaço e preguiça, mas me sentia feia e nada atraente com o cabelo ao "natural".
o Carlos tem os cabelos bem cacheadinhos e costumava usá-los compridos. sempre achei lindo. mas durante a gestação ouvimos mil piadinhas do tipo "tomara que a bebê não puxe os cabelos do pai". ficava irritada e entristecida e não sabia lidar com isso. não queria que minha filha sofresse o que eu sofri por causa dos cabelos (ou por qualquer outro padrão estético absurdo). queria que ela se aceitasse e se amasse em cada particularidade, sem tentar corresponder à esse modelo eurocentrista de ser branca-magra-cabelos lisos e loiros. mas como a influenciaria e apoiaria na construção da sua autoestima se eu não conseguia sentir nada disso por mim mesma?
acredito que o exemplo é o melhor professor. e fui tratar de cuidar das minhas feridas antigas pra conseguir ajudar a Mallu a não sofrer dos mesmos males. fui atrás de me aceitar, de me AMAR. me apaixonei (aos poucos, a passos curtos) por tudo aquilo que um dia eu odiei.
o primeiro passo foi aceitar o corpo pós-parto, ainda vou escrever sobre isso aqui. depois foi aceitar o meu cabelo, aquele tão mal-falado e rejeitado desde a infância. num dia de muito choro e muita crise pessoal, minha irmã foi me cuidar na minha casa e decidi: é hoje. vou tirar uma das amarras que carrego há tanto tempo.
o meu cabelo estava longo, vivia liso, recebia muitos elogios.
e aí eu cortei. de uma vez aceitei os cachos que haviam crescido durante a gravidez e a amamentação onde não usei/uso química, e pra isso tive que aceitar o cabelo curto e tirar a "feminilidade" instantânea que o cabelo longo traz. tomei pra mim a "rebeldia" dos cabelos e saí do padrão que me guiou a vida inteira.
o resultado? uma autoestima mais forte e elevada, orgulho de aceitar uma parte do que eu sou com tanto amor, respeito por tantas e tantos de nós que sofremos opressão pela cor da pele, o crespo/cacheado dos cabelos, os traços que nem de longe lembram os europeus.
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| o primeiro cachinho da Mallu :) |
repito sempre: viver é um ato político.















