sexta-feira, 13 de setembro de 2013

a nossa criação com apego - attachment parenting? o que é isso?

  antes mesmo de engravidar sempre acreditei e "militei" (dentro do meu círculo social) sobre o parto normal e ativo, a amamentação exclusiva até os 6 meses e continuada, o respeito às demandas da criança. isso pra mim não tinha nome, não tinha regra, não tinha livro que ensinasse... era só o óbvio.
  durante a gravidez me concentrei em ter o máximo possível de informações sobre o parto. a probabilidade de cair numa cesárea desnecessária era muito grande e eu precisava me munir de informações pra conseguir parir.
  daí eu pari, as informações foram válidas e eu estava muito feliz. feliz e cansada. fomos deitar e na enfermaria do Hospital Sofia Feldman não tinha bercinho: o bebê dormia junto com a mãe. isso também me parecia óbvio naquele momento - eu só queria ficar grudada na minha cria, assim como estávamos há algumas horas atrás.
  quando chegamos em casa me deu um desesperozinho inesquecível: corri pro banheiro e chorei, chorei, chorei. "o que eu vou fazer agora?", era o que eu me perguntava mentalmente a cada minuto. me preparei pro parto, mas não tinha conhecimento teórico nenhum sobre cuidar de um recém-nascido, criar um bebê. não sabia qual era o próximo passo, tinha muito medo de errar e, de alguma forma, magoar a minha filha.
  e assim, sem nenhum manual, decidi seguir a minha intuição. o mesmo amor que me guiou em direção à um nascimento respeitoso foi que me mostrou qual seria a minha forma de maternar.
  continuamos com a cama compartilhada desde o primeiro dia de vida da Mallu. amamentação exclusiva até os 6 meses, em livre demanda até hoje (e vamos longe!). nunca deixei chorando, dei todo o colo que ela solicitou (que não foi e não é pouco, isso eu garanto, rs). quase nunca saímos de carrinho, o negócio por aqui é sling, sempre grudadinha na mamãe (ou no papai <3). somos contra abuso emocional ou físico, nada de gritos, apelidos pejorativos ou palmada "educativa".
  depois lendo por aí descobri que isso tem nome: attachment parenting, ou criação com apego como é chamada aqui no Brasil. é um movimento crescente (viva!), mas percebo que tem sido "vendido" como mais um manual de "como você deve criar seu filho". e definitivamente não se trata disso. se eu precisasse resumir a criação com apego em uma palavra seria "intuição". desde sempre fomos criados dormindo junto com os pais (senão os predadores vinham e CRÉU!), mamando até quando fosse saudável para mãe e filhote, sendo carregados nas costas (nos colos, em bolsas, em panos), obtendo resposta quando solicitávamos (e qual a única forma que o bebê tem que fazer isso? chorando). a criação com apego vem lá dos nossos primeiros ancestrais e foi primordial pra nossa sobrevivência enquanto espécie. e você aí achando que era modernidade dazíndia hippie, né? ;)
  existem oito direcionamentos para a criação com apego*, mas não se trata de regras. esse estilo de ma(pa)ternar não envolve manual ou técnicas para "encantar seu bebê". se trata de respeito, de empatia. basta se colocar no lugar do outro: você gostaria de ficar chorando e sendo ignorada por alguém que ama e confia? gostaria de ser obrigado a comer uma quantidade maior do que a que te sacia? gostaria de ficar sozinho, longe de onde se sente seguro? de não ter contato de pele e colo quando sente necessidade? o seu bebê também não, e, pra piorar, ele não sabe falar ou externalizar o que sente, senão pelo choro.
  é questão de repensar a nossa disponibilidade pros nossos filhos, o quanto realmente nos dedicamos a acompanhar o desenvolvimento e as demandas que eles têm. é não terceirizar as decisões importantes da vida deles (nem por médicos, avós, professoras, etc), fazer com que seja de qualidade o tempo que passarem juntos.
  já ouço que minha filha precisa de limites (oi?), que sou muito permissiva, que ela é mimada, mal-acostumada e manda em mim. aí entra a cara de alface (um clássico da maternidade!) e a certeza de que estou fazendo o melhor que posso pra pessoa que mais amo nesse mundo.
  a minha maternagem e a parternagem do meu companheiro se amparam em respeito, empatia, amor e doação. e a sua?
 

 
* - preparação para a gestação, parto e criação;
    - alimentar com amor e respeito;
    - responder com sensibilidade;
    - usar o contato afetivo;
    - garantir um sono seguro, física e emocionalmente;
    - prover cuidado com amor de maneira consistente;
    - praticar disciplina positiva; e
    - manter o equilíbrio entre a vida pessoal e familiar.

In: The Attachment Parenting Book : A Commonsense Guide to Understanding and Nurturing Your Baby.


apegados e apaixonados

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

malluquices paternas: o nascimento da Mallu pelos olhos do pai


vocês já conhecem o nascimento da Mallu pelos meus olhos, mas agora vão conhecer pelos lindos olhos do Carlos, o pai dela.

  Vou começar pelo dia em a bolsa rompeu...
  Sabe aqueles dias em que nada da certo? Em que tudo que pode acontecer de errado acontece... 
  Era um dia daqueles, uma segunda feira, no auge de uma gripe, num calor infernal. O dia se arrastava os problemas no trabalho estavam me deixando louco a ponto de pedir pra sair, mas essa opção não existia. A tarde ia caindo e as coisas não melhoravam no trabalho, só pioravam. Eu trabalhava na Operação logística da Kibon (sorvete) e era responsável por 30 caminhões e teoricamente tinha que cuidar para que as entregas fossem realizadas. Só que num dia de verão em BH chove muito, e faz muito calor. Era caminhão com mercadoria descongelada, era caminhão preso em alagamento, era caminhão com aparelho de refrigeração que não funcionava, no fim do dia eu estava morto e fora a gripe que me deixava ainda pior. Eu fiz um monte de coisa que não faria num dia comum, não passei as informações completas para o cliente, enfim, eu só queria sair daquele lugar, abraçar minha esposa barriguda e dormir.
  Sai do trabalho, tarde... Mais de 9h da noite. Devo ter chegado em casa por volta de 23h e fui chegando e logo conversando com a Ana, contando o fiasco que tinha sido meu dia no trabalho. Quando de repente a Ana levanta e começa a escorrer um liquido das pernas dela caindo em cima do tapete da sala. Ela foi pro banheiro, e eu já eufórico queria ir para o hospital, mas a Ana que se preparou muito bem para aquele momento mantinha a calma, não queria ligar para ninguém para não deixar ninguém desesperado e passar isso para ela. Me disse que só quando começasse a sentir contrações queria ir para o hospital com medo que eles falassem que ela precisava de uma cesárea. Mas eu ficava ai do lado dela: "Tá tudo bem amor? Tá sentindo alguma coisa?". E ela bem animada, mas calma. Tão calma que me mandou ir dormir porque eu tava muito cansado (e tava mesmo) então eu fui.
  Acordava às vezes no meio da noite e a Ana não tava do meu lado, ela tava no computador, tão eufórica que não dormiu. Antes das 6 eu já tava acordado e o povo já tava avisado que a Maria Luiza ia nascer. Fiz café pra quando a Dona Célia, Thiago e Michelle chegassem pra levar a gente pro hospital, antes disso já tinha caminhado um pouco com a Ana na praça perto de casa. Ela disse que isso estimularia as contrações. A Célia não tomou o café porque tinha açúcar, acho que só eu tomei aquele café.
  A Ana voltou pra praça com a Michelle para caminhar mais um pouco e eu não me agüentava de ansiedade. Entramos no carro e fomos para o hospital - longe pra caramba, diga-se de passagem. Escolhemos esse hospital mesmo sendo longe pelas referências: minha própria sobrinha tinha nascido prematura lá e foi super bem tratada e hoje é uma menina linda. Hospital Sofia Feldman é o nome. 
  No caminho o telefone corporativo toca - resquícios do que tinha acontecido no dia anterior, mas logo disse que não podia conversar e ligava depois. Fomos para o bairro, mas ninguém no carro sabia exatamente onde era o hospital. Andamos por ruas feias e estranhas, até que depois de descer um morro o hospital surgiu. 
  Pronto. Entramos, fiz a ficha da Ana, ficamos todos na recepção aguardando que ela fosse chamada. O movimento era muito alto, era gente saindo e entrando o tempo todo. Devia ter umas 10 pessoas na nossa frente também aguardando atendimento. Tinha uma mulher que falava sem parar e a Ana estava impaciente com a falação dela, mas depois descobrimos que era um tipo de depressão pós-parto. 
  Fomos para a triagem, a medica ou enfermeira (eu não me recordo bem) entrava e saía da sala, até que ela por fim nos atendeu. Quer dizer, atendeu a Ana e eu fiquei lá, só olhando e ouvindo. Ouvimos o coração da Mallu e estava tudo bem. A médica ainda disse que fomos imprudentes ao esperar tanto tempo depois que a bolsa estourou, embora a Ana não concordasse com isso. 
  Acho que depois disso fomos para a Sala do Pré-parto, lembro que a Ana queria que a Mãe ou irmã dela a acompanhasse, eu fiquei pensando "como assim?". E acabou que fui eu mesmo que fiquei. Fiquei primeiro muito tempo do lado de fora na sala, numa cadeira dura e sem jeito. Como a gripe não saía do meu pé eu queria dar uma deitadinha na cadeira, mas não deu. Tinha um cara do meu lado e eu evitava conversa, mesmo o cara estando de camisa do Galo eu não puxei assunto. Chegou outro e também ficou lá. Os dois conversavam, eu ouvia a conversa, mas não entrava no meio. Lembro que um deles ia ser pai de gêmeos. 
  A enfermeira chamou a gente para entrar, cada um ficou no leito de suas respectivas esposas. Eu conversava com a Ana, ela ainda super tranqüila. A cadeira lá era mais confortável, mas toda hora elas pediam aos homens que saíssem da sala pra examinar as grávidas, depois voltávamos. Nesse meio tempo fui à padaria, comprei coxinha pra todo mundo e uma das enfermeiras não deixou a Ana comer o monte de bobagem que eu tinha levado pra ela. 



  A tarde caia a chuva caia, o calor se mantinha e a gripe também. A Ana já estava vestida com aqueles trajes de hospital que tampa na frente e deixa a bunda de fora, mas a gente amarrou aquilo direitinho e saímos andando pelo hospital para ver se as contrações vinham. Eu estava carregando um suporte de soro que não tinha rodinha e era pesado pra caramba. E a gente ia pelos corredores, na recepção, no pátio com aquele troço pesado, a Ana com a barriga daquele tamanho todo...
  


  Voltamos para a sala do pré-parto, colocaram um remédio no soro da Ana, olharam como estava à dilatação e depois disso as coisas se aceleraram. A Ana começou a sentir dor, as contrações estavam chegando. Fomos para o banheiro e ficamos muito tempo lá, a água quente caia na barriga dela e respingava em mim, e eu reparei em como a enfermeira fazia massagem na Ana e fazia também sempre que a via sentindo dor. O coração tava sempre acelerado. 
  Ficamos um bom tempo no banheiro, voltamos para a cama, sempre tinha alguém pra me mandar sair do quarto para examinarem as outras mulheres...  A dilatação aumentava e fomos para a sala de parto. Nessa hora eu pensei: "É agora!". Mas nem era, quando fomos para a sala de parto que eu senti como a Ana estava sentindo dor, ela tava morrendo de sono, quando as contrações vinham ela corria da cama para o banheiro, do banheiro (toda molhada) para a cama de novo. Ficamos alguns  minutos só nós dois no quarto, quando eu chamava a enfermeira ela falava que só tinha que esperar.
  Chegou o momento que a Ana disse que não agüentaria mais sem a anestesia, eu procurei a enfermeira e ela tava junto de outros olhando alguma coisa no celular e pediam pra esperar. Corri lá fora e dava notícias pra Célia, falei que o bicho tava pegando! Voltei correndo pra sala, a gente continuava lá sozinhos até a enfermeira vir e pedir pra chamar o anestesista (que demorou muito pra chegar). 
  Ficamos mais de uma hora na sala de anestesia esperando, a Ana me mordia às vezes quando a contração vinha. Quando o anestesista aplicou a injeção já não adiantava muito, ele mesmo disse que já era hora da Mallu nascer. Voltamos para a sala de parto que era linda, grande.
  Examinaram a Ana novamente e já era hora mesmo da Mallu nascer. Ela ficou deitada no começo, fazia força mas a enfermeira falava que ela estava fazendo força de uma maneira errada. Então ela ficou de cócoras em cima da cama segurando um arco que a enfermeira colocou, eu assistia aquilo tudo numa vontade de opinar e de ajudar, mas ficava calado porque eu não entendia nada de parto.
 A Ana fazia força e eu comecei a ver o cabelo pretinho da Mallu. Se meu coração já estava acelerado nesse momento, na hora que eu vi aquilo a velocidade triplicou! Eu fiquei num estado de euforia que mesmo se eu tentasse o sorriso não saia da minha cara.
  A Ana continuava fazendo força e disse pra chamar a Michelle na recepção. Fui correndo, algum funcionário do hospital disse que não podia correr no corredor, imagina. Chamei a Michelle e voltei correndo, sentei na borda da banheira que tinha no quarto bem de frente pra Ana e  continuava assistindo com um baita sorriso no rosto. Nossa menina tava nascendo. 



  E nasceu. Eu a vi saindo de dentro da Ana. Não acreditava no que tava acontecendo, tava em outra dimensão. Ouvi aquele choro mais lindo do mundo, a Ana também chorava muito, a Michelle tremia que nem vara verde e eu tava meio que em êxtase.
  Aquele neném agarrada no colo da mãe, eu segurava a mão da Ana, segurava aquela mãozinha, olhava aquele corpinho tão linda e tão perfeita. Acompanhei a enfermeira vestir a primeira roupinha nela todo bobo.


 Foi completamente incrível, diferente de qualquer coisa que eu tinha visto ou qualquer coisa que eu vou ver. Lembro da Ana dizendo chorando com ela no colo e ela chorando junto: "Cê ta com a mamãe, meu amor. Você é linda. É presente que Deus mandou pra gente."


  Eu lá perplexo com aquele momento. Posso falar durante horas e não vou reproduzir o que senti naquele momento. Saí daquela sala de parto sendo Pai orgulhoso da minha filha linda que acabara de nascer e saí num orgulho danado da Ana. Não imaginava que ela fosse tão forte. Superou a dor e o sono, tudo pelo bem da nossa menina.
  Não me lembro mais das coisas que aconteceram na noite depois do parto, eu tava morto. Fomos pro quarto, com luz baixa. Ana e Mallu dormiram na cama e eu na cadeira do lado. Acho que a Ana fez um lanche antes de irmos pro quarto. Eu acordei a noite e lanchei também, mas dormimos aquela noite. 
  Foi minha primeira noite como pai. Quer dizer, eu me considerava pai quando a Mallu tava na barriga, mas agora era diferente. Estavam ali as duas, as razões da minha vida, e eu do lado. Realizado.
  Mas esse foi só o começo da melhor parte da minha vida.



tem como não se derreter? <3
toda quarta-feira vocês vão saber o que ele pensa e sente a respeito da paternagem ativa que pratica. quarta agora é dia de malluquices paternas!


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

das mudanças que a maternidade me trouxe: a leoa assumiu a juba

  eu tinha 7 anos e a professora reuniu todos os alunos depois da educação física pra uma conversa livre. fez algumas perguntas e pediu que cada um as respondesse, e uma delas foi: "o que você mais gosta em você? o que tem de mais bonito?". toda orgulhosa, respondi: "meu cabelo! meu cabelo é lindo". ela riu. não sorriu, não, ela gargalhou. os alunos começaram a gargalhar junto, acredito eu que em sua maioria sem saber o por que, só seguindo a professora. depois de muito rir, ela disse: "mas esse cabelo aí? se fosse igual o da kelly eu entenderia, mas o seu?" e riu mais um pouco.
  a kelly tinha os cabelos lisos e loiros. os meus cabelos eram castanhos, cacheados e volumosos.
meus cachinhos e eu
 
 eu estudava em uma escola particular renomada na região. não comentei com ninguém o que havia acontecido, afinal sempre que questionava alguma coisa era obrigada a rezar na capela na companhia de alguma freira.
 comecei a reparar os cabelos das minhas colegas de sala. pra começar não tinha nenhuma negra, ninguém com o cabelo crespo. cabelo cacheado e cheio, era só o meu. as outras alunas tinham os cabelos bem parecidos - loiros, castanhos, bem pretinhos -, mas sempre lisos. um menino da turma era negro e provavelmente teria o cabelo crespo, mas usava a cabeça raspada.
  decidi que queria fazer franja, ser igual a todas aquelas meninas. quem sabe assim meu cabelo seria bonito? uma tia cortou minha franja e, óbvio, nem de longe fiquei parecida com as coleguinhas. a franja encolheu, se escondeu amontoada na cabeleira longa e cacheada. me senti horrorosa, tinha vergonha que as pessoas me vissem. então peguei alguns bonés da coleção do meu pai e era assim que saía, pra onde quer que eu fosse: o boné escondendo os cabelos que outrora achava tão lindos.
  passei a sonhar com o dia que teria 15 anos: seria alta, magra, cabelos lisos e loiros, olhos verdes e me chamaria Adriane (bjs, prima!). assim, num passe de mágica, eu seria completamente diferente do que eu era, seria uma cópia da barbie misturada com as minhas colegas da escola e com a minha prima adolescente que eu sempre achei tão linda. os 15 anos chegaram e eu odiava meu corpo, meu cabelo, minhas feições, minha voz, meu jeito.
  e falando na adolescência não posso deixar de dizer que as minhas amigas mais próximas tinham o cabelo escorridinho, "controlado". o meu definiu ainda mais os cachos, era "rebelde". a primeira vez que passei prancha (chapinha) no cabelo, lembro de fechar os olhos no salão e pedir: "meu deus, que fique pelo menos igual o da Laila, um liso ondulado já me deixaria feliz."
  comecei a modificar meu cabelo com frequência: pintar, escovar, pranchar, alisar, passar química, progressiva, o que viesse. já foi de vários tamanhos, cortes e cores, mas uma coisa permanecia igual: eles ficavam lisos. muita gente nem sabia que na verdade meu cabelo era cacheado (e eu preferia assim).

  então eu engravidei. e aí não podia mais alisar meu cabelo com química. comecei uma guerra com a escova e a chapinha - morria de cansaço e preguiça, mas me sentia feia e nada atraente com o cabelo ao "natural".
  o Carlos tem os cabelos bem cacheadinhos e costumava usá-los compridos. sempre achei lindo. mas durante a gestação ouvimos mil piadinhas do tipo "tomara que a bebê não puxe os cabelos do pai". ficava irritada e entristecida e não sabia lidar com isso. não queria que minha filha sofresse o que eu sofri por causa dos cabelos (ou por qualquer outro padrão estético absurdo). queria que ela se aceitasse e se amasse em cada particularidade, sem tentar corresponder à esse modelo eurocentrista de ser branca-magra-cabelos lisos e loiros. mas como a influenciaria e apoiaria na construção da sua autoestima se eu não conseguia sentir nada disso por mim mesma?

  acredito que o exemplo é o melhor professor. e fui tratar de cuidar das minhas feridas antigas pra conseguir ajudar a Mallu a não sofrer dos mesmos males. fui atrás de me aceitar, de me AMAR. me apaixonei (aos poucos, a passos curtos) por tudo aquilo que um dia eu odiei.
  o primeiro passo foi aceitar o corpo pós-parto, ainda vou escrever sobre isso aqui. depois foi aceitar o meu cabelo, aquele tão mal-falado e rejeitado desde a infância. num dia de muito choro e muita crise pessoal, minha irmã foi me cuidar na minha casa e decidi: é hoje. vou tirar uma das amarras que carrego há tanto tempo.
  o meu cabelo estava longo, vivia liso, recebia muitos elogios.
  e aí eu cortei. de uma vez aceitei os cachos que haviam crescido durante a gravidez e a amamentação onde não usei/uso química, e pra isso tive que aceitar o cabelo curto e tirar a "feminilidade" instantânea que o cabelo longo traz. tomei pra mim a "rebeldia" dos cabelos e saí do padrão que me guiou a vida inteira.





  o resultado? uma autoestima mais forte e elevada, orgulho de aceitar uma parte do que eu sou com tanto amor, respeito por tantas e tantos de nós que sofremos opressão pela cor da pele, o crespo/cacheado dos cabelos, os traços que nem de longe lembram os europeus.


  lá em casa celebramos todos os cachinhos da família. e quero ser a referência de beleza de cacheados que a Mallu vai ter pra construir sua autoimagem e autoestima, já que não vamos na televisão, nas revistas ou até no dia-a-dia mulheres que aceitam a cabeleira e reconhecem a beleza que ela tem.

o primeiro cachinho da Mallu :)

  repito sempre: viver é um ato político.
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Guest Post: Um dia eu anoiteci mãe - por Sabrina Proença

  minha cabeça tá cheia de posts aqui pro blog, só me falta tempo pra escrevê-los. comentando num grupo que participo sobre isso, pedi que as meninas votassem os temas que mais interessavam. e o grande vencedor foi: as mudanças que a maternidade me trouxe. foram muitas, foram lindas.
  a Sabrina, uma querida que conheci enquanto gestávamos nossas meninas, disse que pensava em escrever sobre isso também. de pronto ofereci o espaço aqui no blog pra que ela inaugure a sessão de posts que virá sobre o tema.
  se deliciem com esse relato sensível e sincero de uma mãe muito amorosa.

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UM DIA EU ANOITECI MÃE.

     Algumas pessoas acham que a palavra mãe remete a uma mulher maravilhosa, perfeita, uma verdadeira santa. Algo em que você deve se transformar assim que recebe esse título. Para alguns quando a mulher descobre que está grávida, e para outros somente quando nasce o bebê. É como se acontecesse algo mágico que coloca em você, naquele momento, todas as características que são  esperadas de uma mãe. Você tem que ser paciente, corajosa, amável, carinhosa, tem que gostar de trabalhar, tem que ser ótima cozinheira, não pode sentir sono nunca, tem que ter braços fortes (“Peso de filho não cansa nunca o braço da mãe, não é mesmo?”). E ao mesmo tempo não pode mimar, não pode ter o coração “mole”, não pode sentir saudades durante o trabalho… Ufa!! Nem sei se tudo isso cabe dentro de uma mulher só. Esqueci de dizer que ainda tem que ser uma ótima esposa. Sabendo que a definição de ótima esposa muda muito, depende de como pensam as pessoas ao seu redor.
     Hoje eu digo que eu renasci quando Ana Clara nasceu. Mas essa magia aí não aconteceu comigo. Não sou dessas, e desconfio sempre que dou de cara com uma possível super mãe. Depois daquele fim de tarde, no dia 15 de janeiro, eu anoiteci mãe, mas o meu dia foi bem longo e demorado. Foi parte de uma vida sendo preparada pra essa mudança, muito mais do que nove meses. Cuidar de alguém não é fácil, fazer com que essa pessoa seja feliz e ainda contribua para um mundo melhor é mais difícil ainda, principalmente nos dias de hoje. E quando ela nasceu, “socorro”, eu não sabia nada. E até hoje não sei praticamente nada. Será que é tão visível assim? De vez em quando sou julgada pelos olhares de estranhas em lugares públicos  e depois vem a pergunta: “É sua primeira filha?”. Desculpa, minha filha, se sou diferente e gosto de te ter junto a mim no sling. Ou se te falo com carinho quando  grita, chora alto ou puxa o meu cabelo em público. Se não quero que coma doces agora, ou se às vezes deixo você com aparência de um menino. Se entendo sua presença tão recente nesse mundo.
     É… não tá fácil pra ninguém. Mas como isso é maravilhoso, ter o nosso bebê, o ser mais fofo, lindo e cheiroso do mundo. No nosso caso foi amor à primeira batida do coração. Fui te conhecendo e criando o meu amor.  E quando isso aconteceu, repouso, riscos, solidão. Foi preciso coragem, e aprendi que junto com ela sempre tem que vir a fé. Preciso de muita coragem pra cultivar e defender o nosso amor sem endurecer o coração. E quando ela nasceu  aprendi que amamentar é uma das experiências mais maravilhosas da vida. Melhor do que isso, só mesmo ver seu bebê crescendo saudável com o alimento que você pode dar. Aprendi que detesto escutar ela chorando, pode dormir no meu colo que eu aguento. Hoje sei o que significa “um dia de cada vez”, hoje deu tudo certo. Sei que nada melhor do que um dia após o outro, a febre passou, a gripe foi embora, essa noite deu pra dormir… E como uma coisa pode ser ruim e boa ao mesmo tempo, como ter que sair de casa para trabalhar.
     Agora eu só posso afirmar uma coisa, ela é a luz que Deus mandou para iluminar a minha vida, antes dela eu vivia no escuro. Vamos trilhar nosso caminho juntas, mesmo não sabendo aonde vai dar. Juntas iremos aprender muito.

Sabrina e Ana Clara <3

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

volta ao trabalho - Parte II: a primeira semana

  segunda-feira passada eu voltava ao trabalho e deixava, pela primeira vez, minha cria "sozinha" em casa. levantei cedo, tomei banho, amamentei, ordenhei meu leite, saí meio sem noção do que precisava levar na bolsa (quase coloquei uma fralda de boca, força do hábito). o Carlos e a Mallu me trouxeram até o trabalho, viemos rindo e conversando, mas meu coração faltava pular do peito. me deixaram no portão, enchi os dois de beijos e entrei.

saindo de casa pra levar a mamãe no primeiro dia de trabalho


aqui as coisas são diferentes: o neném que deixa a mamãe na escola
beijo de saudade antecipada
  bom, deixa eu resumir: meu primeiro dia de trabalho foi ótimo. revi os alunos, os colegas, fiz o que gosto, pensei em coisas novas pra biblioteca, não chorei! o Carlos ia me informando como estavam as coisas em casa (bem, graças a Deus!) e me mandando fotos pra amenizar a saudade. depois a Mi (minha irmã) chegou, foi super tranquilo também, Mallu tomou meu leite e dormiu boa parte do tempo.

mãe! tô tomando café da manhã sozinha ó!

lendo com o papai

brincando e sendo linda

dormindo no colo do papai
  daí vem a minha surpresa quando chego em casa: fui correndo toda cheia de amor pro lado da Mallu e ela nem me olhou nos olhos. veio no meu colo e mamou, sem grandes reações de alegria (sim, estou falando da mesma Mallu que dava gritinhos eufóricos e se balançava toda só de me ver passar no mesmo cômodo). imaginem meu coração de mãe culpada? despedaçado.
  durante a tarde aconteceu uma situação muito tensa e triste na nossa casa, um problema seríssimo de família que envolve meus pais, meus irmãos e eu, e a minha pequena ficou o tempo todo dormindo no meu colo. passada a confusão, assim que eles foram embora, notei que a Mallu tava muito sonolenta e apática, e decidi ver se ela tava com febre (se fiz isso 2 vezes até hoje foi muito, nunca encano com isso). pra minha surpresa: 38,5 de febre. fomos tomar banho e a febre cedeu, 37,3. muito peito e muito carinho, e a febre aumentando, até chegar a quase 39. de repente eu desabei. me senti uma mãe de merda por não poder cuidar da minha filha em tempo integral, toda a confusão familiar me derrubou, parecia que eu não me reconhecia mais, que não tinha certeza da minha força e da minha capacidade. uma amiga de um grupo online disse algo sobre o bebê convulsionar e eu, desesperada, mediquei a febre (outra coisa que não costumo fazer sem REAL necessidade - me julguem).
  saldo do primeiro dia: choradeira, insegurança, culpa e febre emocional.
  preciso mesmo falar como se seguiu a semana? ao mesmo tempo em que me sentia feliz e satisfeita por estar de volta ao trabalho, ao "mundo real", sentia uma culpa imensa por não estar o tempo todo com a Mallu. ela não teve crise de choro nenhuma vez na minha ausência, dorme bem, come frutinhas e almoço, toma meu leite... mas me trata com indiferença quando eu volto e isso quase me mata. precisamos de muitas horas juntas pra que ela volte a agir normalmente, me olhar nos olhos, me fazer carinho enquanto mama. é muito, muito difícil.
  a saudade e a culpa foram acumulando, até que sexta-feira eu peguei uma gripe (???) que até hoje não melhorou, e tô extremamente cansada física e emocionalmente.
  o fim-de-semana aproveitamos pra nos curtir. sábado saímos cedo pra assistir "O Renascimento do Parto" (o que merece um post em breve), passeamos um pouco pela Praça da Liberdade, e fomos visitar a vovó e o vovô (pais do Carlos). domingo foi dia de namorar meu marido e minha filha, quietinhos no nosso ninho. pena que passa tão rápido e a saudade já começa a apertar antes mesmo que eu saia de casa...
  enfim, o que se há de fazer? preciso trabalhar, minha filha tá com pessoas que a amam e cuidam muito bem dela... tenho que relaxar e deixar as coisas fluírem. o tempo dá jeito em tudo, não vai ser nisso que ele vai falhar, né?
  fico aqui contando as horas pra chegar em casa e encher o meu amorzinho de beijos e abraços, até que aqueles olhinhos parem de me evitar e me acolham com todo amor que têm.

domingo, 18 de agosto de 2013

volta ao trabalho - parte I

   amanhã é o dia que volto a trabalhar. sou auxiliar de biblioteca numa escola municipal, gosto do meu trabalho, tento fazer a diferença na vida das crianças e adolescentes que atendo. é difícil lutar contra algumas coisas há muito enraizadas no sistema de ensino público, mas isso é assunto pra outra hora.
  nunca passei mais de 3 horas longe da Mallu. na verdade hoje foi a primeira vez que ficamos longe por tanto tempo assim. a partir de amanhã serão pelo menos 6 horas por dia, e sinceramente ainda não sei como me sinto quanto a isso. 
  sinto muita falta de trabalhar - sair todos os dias, ter uma rotina, ver "gente grande", conversar sobre assuntos variados. mas ao mesmo tempo não queria ter que deixar a minha pequena por tanto tempo. sei que muitas mães não tem esse privilégio de trabalhar meio horário e não puderam ficar em casa com a cria como eu fiquei (tive 6 meses de licença maternidade + 1 mês de férias). de certa forma passamos um bom tempo juntas, fui 100% dela em cada um desses dias. a licença de 6 meses me permitiu continuar mais tranquilamente com o aleitamento materno exclusivo, e em livre demanda, o que foi maravilhoso. muitas mães conseguem voltar ao trabalho com 120 dias de licença e persistir no aleitamento materno exclusivo (beijo, Aline Vilela!), mas a grande maioria introduz alimentação antes da hora, leite artificial, ou até provoca um desmame precoce.
   a Mallu começou a introdução alimentar (esse post já tá pronto na minha cabeça, falta ter tempo de passar pra cá), mas o meu leite continua sendo seu principal alimento. tenho tentado há algum tempo ordenhar e congelar pra ser oferecido à ela pelos cuidadores (o pai e a tia-madrinha), mas não consegui muita coisa. acho que a ansiedade e o stress da volta ao trabalho tem atrapalhado um pouco nessa ordenha, mas ainda assim fico feliz de conseguir deixar o MEU leite pra ela. 
 
pequeno estoque de amor

  já treinamos pra que ela beba o leite no copo com bico rígido e sem válvula, e aos poucos ela tem aceitado melhor. o pai e a tia são apaixonados por ela e sei que estará bem cuidada, na sua casinha, sem mudar de ambiente bruscamente... sei que eles farão de tudo pra que ela tenha todas as suas necessidades atendidas, assim como eu tenho feito até aqui... mas ainda assim, se eu pudesse, ficaria em casa com ela. minha renda faz muita diferença na nossa família e não posso abandonar o trabalho mas, se pudesse, o faria.
  que as feministas (só as ultrapassadas, vamocombiná) me joguem pedras e me mandem queimar os sutiãs de amamentação, mas ó, entre minha filha e qualquer outra coisa, a escolha é sempre a minha filha. muita gente acha que nos anulamos quando escolhemos ficar em casa cuidando dos filhos, mas desconsideram duas coisas importantíssimas: 1) assim não terceirizamos a criação das crianças, fazendo com que outras mulheres deixem seus filhos pra cuidar dos nossos; 2) ser mãe não é coisa à toa, é CRIAR GENTE. e pro mundo melhorar precisamos de pessoas melhores. crianças abandonadas emocionalmente não costumam se tornar adultos saudáveis.

  enfim, já me prolonguei muito e dei voltas pra dizer que: se pudesse deixar o trabalho pra cuidar da minha filha, deixaria. não posso. amanhã volto a trabalhar e enquanto ela mama e faz carinho no meu rosto nesse exato momento, tenho vontade de parar o tempo e ser assim, só dela. também não posso. então fico aqui com o coração apertadinho e com os dedos cruzados, torcendo pra que essa fase que começa na nossa vida amanhã venha cheia de alegrias e boas surpresas. 

amor, amor, amor