terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

primeiros passos

  filha,
  mais uma vez estamos passando por dilemas parecidos. você ameaça dar os primeiros passos - já se equilibra em pé com facilidade, estica as perninhas e então senta de novo. às vezes dá um passinho ou dois, mas logo vem engatinhando correndo na minha direção, escalando meu colo, me pedindo o peito. nos aconchegamos e fica pra outra hora essa história de caminhar por aí.
  é assim comigo também. fico em pé, me equilibro, ameaço dar um passo... mas logo me vejo correndo pro seu colo. não me sinto pronta, fico insegura, quero você.
  depois de um dia inteiro de tentativas e recuos a gente se cansa. você não deixa o sono te levar com medo de que ele me leve também, que eu não esteja ao seu lado quando voltar a abrir os olhos. eu te dou colo como que pedindo um colo pra mim, esgotada, o corpo pedindo renovação pra lidar com tanto amor e felicidade. nos desgastamos na medida em que nos amamos à exaustão.
  a insegurança bateu tão forte nos últimos tempos que tenho perguntado por aí se as pessoas me acham uma boa mãe. perguntei pra sua vó, pra sua tia, pro seu pai. todos eles me tranquilizaram, me ajudaram a desembaçar o olhar, mas ninguém consegue me passar a segurança que preciso que venha de você.
  eu sei, ainda estamos profundamente conectadas. precisamos relaxar e curtir o vínculo. precisamos dar nossos passos sem temer que eles nos afastem - eles não vão, nada irá, nunca.
  pode andar, meu amor. pode caminhar por aí, pode botar firmeza nas pernas e dar vazão à esse seu olhar curioso. eu também vou dar meus passos, redescobrir o que é meu. continuaremos com as mãos dadas, o peito aberto, o coração em sintonia.
  vai tranquila, filha, eu também vou. e estaremos sempre prontas pro retorno, prontas pro nosso ninho, pro nosso amor. uma da outra, uma a outra.


 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

do amor e do esgotamento

"Não há contradição entre amar alguém e sentir-se sobrecarregado por essa pessoa; na verdade, o amor tende a magnificar o peso. Esses pais precisam de espaço para sua ambivalência, possam ou não se permitir isso. Para aqueles que amam, não deve haver vergonha de sentir-se esgotado - até mesmo em imaginar outra vida."
  -  Andrew Solomon, Longe da Árvore.




eu sei, eu sei, o blog tá abandonadinho da silva. é que nas minhas férias eu fico super sem tempo - bebê grude-grudinho colada na mamãe o dia todo - namoramos, curtimos e cansamos muito juntas. agora as férias chegam ao fim e o blog vai voltar a ter atenção, prometo. só precisava postar esse trecho antes de qualquer coisa porque, ó, maior realidade da vida materna, né não?


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

paciência 0 x 10 culpa

durmo muito pouco, filha agarrada no peito a noite toda. acordo cedo, despertador tocando, filha enroscando em mim pra não me deixar sair da cama. mais peito, mais despertador. tô atrasada, cansada, mal-humorada.
vou tomar café da manhã e me jogo num copo de refrigerante às 6h30 da manhã. tudo errado, ana, tudo errado. e a merda do plano de alimentação saudável? foi pra puta que pariu? "e os palavrões que você tava evitando, caralho?". ah, foda-se.
vontade de chorar, de ficar escondida num canto qualquer dormindo sem ter que ir trabalhar, sem ter que trocar a filha, lavar fraldas, fazer comida, conversar com quem quer que seja.
mas não. engulo o choro e vou pro banho. ódio desse corpo flácido, esses peitos que já foram os mais bonitos que já vi e agora estão esfriando sentindo a cerâmica do chão cada vez mais perto.
depois vou me vestir no quarto, e a filha que tava rindo há segundos atrás com o pai, me vê e começa a gritar, chorar, pedir colo. dou o colo, o peito, mas juro que não tô nem um pouco afim. pergunto 'o que foi, filha? o que você quer' enquanto ela se debate e chora, ju-ran-do que um bebê de 11 meses vai conseguir articular e expressar o que tá sentindo.
me irrito mais, termino de me arrumar, vou me despedir da filha e do marido. ela não quer me deixar sair, chora ao me ver saindo porta afora e eu tenho vontade de mandar meu emprego pra puta que pariu, cuidar da minha filha em tempo integral e não ter que sair cedo e com essa sensação de algo entalado na garganta por vê-la chorar.
caminho rápido e resmungando até chegar na padaria mais próxima e compro mil paçocas e cem bombons. se é pra passar o dia nesse stress todo, que seja entupida de doces. "aí morre diabética e não sabe por que", uma voz sussurra no meu inconsciente, e já dá pra imaginar pra onde mandei a infeliz, não é?
chego no trabalho e a "colega" consegue transbordar o copo que já tava cheio com suas chatices habituais. quero pegar minha mochila e ir embora daqui, pra onde não sei, mas pra casa também não é. desculpa, mundo, mas eu quero sossego.

meus sinceros parabéns às mães de ferro, às mães-maravilha, mas euzinha aqui sou de carne, osso e sangue fervente.
é pecado estar cansada, exausta, querendo sumir um pouquinho pra um mundo onde só eu existo?

não deixo minha filha chorar, dou peito quando ela quer, amo amamentar, amo ser mãe, defendo o amor próprio e descoberta a autoestima e o prazer no corpo pós-parto, gosto demais do meu trabalho, tô tentando melhorar a alimentação e procuro ser gentil com todo mundo que cruza meu caminho.
mas paciência de mãe também tem limite.

me abraça que eu tô me sentindo a pior mãe do mundo e um desgaste físico-emocional que não me cabe. e-x-a-u-s-t-a.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

angústia da separação - sombras e mais sombras

  ontem Mallu completou 11 meses (♥) e posso dizer que estamos no pico do pico do pico da angústia da separação. estamos sofrendo - sim, as duas - e ando meio perdida nisso tudo.
  desde os 6 meses de idade Mallu começou a demonstrar alguns sinais da angústia (se você não sabe do que se trata, leia aqui). a própria pediatra dela me avisou durante a consulta: "ela está começando a perceber que vocês duas não são a mesma pessoa, e isso causa uma ansiedade extrema nela, que ainda não entende como vai ser estar separada da mãe". eu já havia lido muito a respeito, sabia que a fase estava chegando e me supunha preparada para lidar com ela. afinal, colo, grude, aconchego e amor nunca faltaram por aqui, né?!
  a surpresa foi que essa fase de ansiedade de separação não passa de um dia pro outro. os outros picos de crescimento (também listados no link acima) costumam durar entre 1-4 semanas. esse salto de desenvolvimento pode ir firme e forte até os 2 anos. quer dizer... pânico total da mãe e do bebê.
  ao mesmo tempo que é incrível perceber os primeiros "passos solo" da minha pequena, o desenvolver de sua autonomia e os primeiros traços da sua personalidade, dá um medo inexplicável por não saber como lidar com tudo isso. até ontem ela era o meu bebêzinho, que ficava quietinho no meu colo, que se satisfazia com minhas brincadeiras e carinhos, que dormia só de ouvir aquela música preferida na hora de ninar. agora ela é uma quase-criança com suas próprias vontades e preferências, que reluta na hora do sono e de trocar a fralda ("quem foi que disse que quero fazer isso agora, mãe? sai pra lá!", imagino que ela tem vontade de me falar), que se desprendeu do seio da mãe e quer ganhar o mundo. 
  e assim como a Mallu quer sua individualidade - ao mesmo tempo que não sabe lidar com ela - eu também quero a minha. há alguns meses atrás eu não sentia vontade ne-nhu-ma de passar um tempinho que fosse longe dela. vinha pro trabalho chorando, ficava a cada minuto me perguntando como ela estaria em casa sem mim, se tinha comido bem, se tinha dormido, essas coisas todas. ia pra terapia depois do trabalho e levava a pequena junto, só pra não ter que ficar mais uma hora por dia longe dela (mesmo com ela bagunçando todo o consultório da psicóloga e não me deixando concentrar direito no que eu precisava fazer ali). e agora eu sinto cada vez mais falta de um tempo meu. sempre fui uma pessoa que gosta muito de silêncio, de leitura, de introspecção. e é óbvio que desde que a Mallu nasceu esses momentos são cada vez mais escassos, mas eu não me sentia incomodada com isso até aqui. atualmente tenho precisado me fechar, me ouvir um pouco, me permitir sentir prazer na solidão. e ao perceber essa necessidade me banho num mar de dúvidas e culpas.
  o mais difícil tem sido - tanto pra mim quanto pra Mallu - conviver com a realidade de não sermos mais a mesma pessoa. agora nos sabemos separadas, cada uma com seus desejos e necessidades, nem sempre dispostas a ceder mas sempre buscando negociar. claro que não se trata de um embate entre nós, muito pelo contrário, é um momento muito delicado da nossa relação e que envolve os sentimentos mais puros - amor, segurança, confiança, cumplicidade - e os mais pesados - culpa, ciúme, medo.
  sei que é natural esse afastamento - na verdade é mais que natural, é necessário para nós duas. mas admito que ainda não estou conseguindo lidar com a enxurrada de sentimentos que vieram junto. sei que tenho sombras do meu passado enquanto filha interferindo nos meus sentimentos quanto a isso, e que se não examiná-los minuciosamente vai ser muito mais difícil conseguir organizar as coisas aqui dentro do peito.


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  o texto soou mais como um desabafo (e não é isso que ele é?), mas deixo aqui algumas explicações e dicas sobre essa fase:

  Angústia da Separação - Salto de desenvolvimento entre os 6 e 9 meses
  
 "Como se sabe o bebê humano nasce muito imaturo durante seu primeiro ano de vida vai construindo e consolidando habilidades que lhe permitirão viver (sentar, andar, comer, etc). Durante essa fase a mãe (ou cuidador substituto) estabelecem uma relação muito próxima, quase visceral com o bebê e garante que todas suas necessidades sejam atendidas.

Segundo Winnicott, o inacabado ser humano quando vem ao mundo se confunde com este. Ainda não tem definido o que é seu corpo, o que ele é, o que é o outro, o que é o mundo que o cerca. Ao sugar ao seio, mais do que olhar para este, o bebê olha para o rosto de quem o está amamentando e quando olha no rosto da mãe o que vê é ele mesmo. O bebê recém-nascido então não diferencia sua mãe dele mesmo, para ele o corpo da mãe é uma extensão de seu próprio corpo.

Aos poucos o bebê vai descobrindo seu corpo, as mãos, pés, inicia-se o desenvolvimento psicomotor ainda rudimentar e assim vai se formando uma imagem  do seu corpo. Lacan (1949) desenvolveu a ideia do estágio do espelho (originalmente postulada por Wallon em 1934), que fala mais ou menos o seguinte: quando olha para o espelho o bebê inicialmente vê um outro, só depois percebe é que ele mesmo está ali. Então primeiro vê o outro, depois esse outro é ele mesmo e dá-se a partir daí um jogo de alternância eu-outro.

É justamente nessa fase (a partir do 6º, com mais intensidade no 8º mês) que o bebê começa a tomar consciência de que ele e a mãe são distintos, e essa descoberta lhe traz angústia e medo. É importante ressaltar que para um bebê muito pequeno só existe aquilo que está no seu campo de visão, então quando a mãe não está ele pode realmente ficar em pânico.

Essa fase leva a criança a ficar mais "grudada" na mãe, gera dificuldades de sono, mais choro e falta de apetite (em alguns), porém não deve ser menosprezada. Aqui destaco um trecho do texto da Andreia Mortensen sobre o assunto:

É preciso levar a sério a intensidade dos seus sentimentos. O bebê não está “chatinho”, “grudento” nem “manhoso”. Como a mãe é o seu mundo e representa sua segurança, e como a noção de permanência (ou seja, tudo que está longe do campo de visão) não está completamente estabelecida, essa angústia é muito acentuada. A maioria das conexões nervosas no cérebro são feitas na infância e a maneira com que lidamos com as emoções do bebê tem um efeito profundo em como essas conexões se refletirão na capacidade do bebê lidar com suas próprias emoções quando for adulto. Em outras palavras, experiências na primeira infância e interação com o ambiente são as partes mais críticas no desenvolvimento do cérebro da criança. 

 
Para lidar com essa fase tão delicada encontrei no livro Soluções para Noites sem Choro algumas dicas:


1. Aumentar os cuidados diurnos com o bebê, dar mais carinho; 

2. Seguir a rotina de dormir sempre;
3. Manter fotografia da mãe próxima ao berço;
4. Se despedir do bebê ao sair, sempre dar tchau;
5. Demonstrar confiança e alegria ao deixá-lo;
6. Responder rapidamente ao choro do bebê;
7. Durante o dia faça pequenas separações do bebê, ir a outro cômodo e deixá-lo só mas escutando sua voz para que aos poucos se entenda que você voltará, que continua existindo quando sai do campo de visão dele. Brincar de esconde-esconde ajuda bastante nessa fase;
8. Evitar transferência de colo para colo. Apesar dessa ser a prática comum, entregar o bebê ao cuidador no colo, esse simples ato cria ansiedade na criança que sai dos braços da mãe para o de outra pessoa, gera um desconforto físico que só aumenta a ansiedade. Assim o ideal é fazer a transferência em outro ambiente, como no chão enquanto o bebê brinca. Inclua o cuidador nessa brincadeira, você da tchau e sai, esse é o momento do cuidador pegá-lo, aumentar a interação com o bebê."

Referências:
Artigo: A imagem corporal e a constituição do eu.
Texto: Fases de crescimento e desenvolvimento que modificam o sono do bebê e da criança
Livro: Soluções para noites sem choro. Elizabeth Pantley. M Books, 2003.
Livro: O Livro da maternagem: para mães, pais, cuidadores e doulas. Thelma B. Oliveira, Ed Schoba, 2012.

(via: Aventuras Maternais)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

amor, respeito e empatia - criação positiva e disciplina com apego

  há pouco tempo contei aqui no blog como se deu a descoberta da nossa criação com apego, e quem acompanha a nossa página também tem visto postagens e compartilhamentos que dizem respeito à uma forma de orientação das crianças sem violência, mais respeitosa e empática.
  viemos de uma geração que foi criada com violência (física, verbal e emocional) e é natural que, num primeiro momento, consideremos essa a melhor forma de conduzir a educação de uma criança. se posicionar contra palmadas e gritos é, além de quebrar um ciclo muito presente na nossa cultura, também admitir que não fomos tratados com o respeito e o amor que merecíamos. não é fácil tirar os pais do pedestal e enxergá-los como os humanos passíveis de erros que são, mexer no passado e enxergar as dores da nossa infância, dar ouvidos à criança que fomos um dia.
  Carlos e eu adotamos um mix de criação com apego e disciplina positiva na educação da Mallu. isso não significa que temos um livro de regrinhas a seguir, mas sim que procuramos nos colocar no lugar dela a cada situação que enfrentamos enquanto família. em vez de colocar um rótulo de "chorona", "birrenta", "difícil", decidimos buscar entender o que ela está sentindo e qual a melhor forma de superarmos aquele momento difícil juntos.
  um bebê (ou uma criança) não tem o mesmo desenvolvimento cognitivo e emocional que um adulto, e sei que isso parece óbvio quando dito assim, mas muitas vezes ignoramos na vida prática. quando sentimos raiva ou frustração porque nosso filho não obedece o que estamos mandando geralmente não levamos em consideração que talvez ele nem esteja entendendo o que queremos dizer com aquela rispidez e palavras de ordem. quando batemos achando que "está doendo mais em nós que neles" e que "se não apanhar em casa, vai apanhar na rua" ignoramos o fato de que o nosso descontrole emocional é o que nos leva a agressividade e, principalmente, que a violência é cíclica (o oprimido que mais tarde se transforma no opressor).
  atitudes simples podem contribuir com a evolução desse relacionamento pai/mãe-filho, como controlar a raiva antes de agir, tentar entender as emoções do bebê/da criança que faz "pirraça" e ajudar que ele/ela também entenda e expresse de outra forma, respeitar seus limites de assimilação e mostrar quais são as consequências de seus atos em vez de puni-los simplesmente.
  nós temos a responsabilidade de tornar o mundo mais amoroso, respeitoso e empático. vamos construir uma história consciente e feliz ao lado dos nossos filhos?

 
 

* imagens retiradas da página Bater em criança é covardia.
* mais informações sobre disciplina positiva na página Crescer sem violência.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

entre as expectativas mirabolantes e as reais vivências maternas

  meu sonho de vida sempre foi ser mãe. eu sabia desde bem nova que nasci pra isso.
  frequentemente me imaginava linda, radiante, jorrando amor por todos os poros, enquanto empurrava um carrinho de bebê pelo parque ou observava meu anjinho dormir tranquilo no berço.
 opa, peraí. linda e radiante? empurrar carrinho por aí? observar bebê quietinho no berço? acho que não estou falando da mesma mãe que me tornei, não é? e, admito, isso foi muito frustrante no início da minha maternagem.
  o que eu acompanhava sobre maternidade era uma realidade muito diferente da que descobri como sendo a minha tempos depois. antes mesmo de engravidar lia blogs de mães que contavam sobre o enxoval, as fotos do book gestante, a arrumação do quartinho, a banheira caríssima e trambolhenta (dica que eu sempre lia por aí: comprar com suporte porque depois da cesárea não dá pra ficar abaixando pra dar banho em bebê). sempre quis um parto normal, mas, ah, se fosse cesárea tudo bem, "o importante é o bebê vir com saúde". amamentar achava bacana, mas mamadeira e chupeta seriam partes essenciais do enxoval. e é claro que meu bebê dormiria em seu bercinho, no quartinho decorado pra ele, ao som da música do móbile superestimulante. eu poderia descansar enquanto o bebê dormisse - cada um no seu quadrado quarto, e continuar frequentando o salão e quem sabe até a academia. bebê conforto + carrinho estão aí pra facilitar a vida, não é mesmo? perto do primeiro ano do meu filho eu já teria meu corpo novinho em folha de volta, minha vida profissional tranquila e estável, o amor da minha criancinha que seria sempre tão calminha e risonha e sairia aos fins-de-semana só com o marido ou os amigos de boteco, afinal, ninguém é de ferro.
  sim, eu tinha uma alma menasmain. e antes mesmo da Mallu nascer fui obrigada a me reconstruir dentro dessas idealizações malucas. lutei pra parir, não aceitaria uma cesárea e "vocês estão bem, isso que importa" como consolo de forma alguma. a amamentação foi uma bandeira que ergui e abracei desde a primeira hora de vida da minha filha. e por mais "esse peito não tem leite" ou "ela tá com fome, seu leite não sustenta" que tenham cruzado meu caminho, continuamos firmes e fortes no nosso vínculo alimento-segurança-amor.
  tive que ajustar minhas expectativas e aprender a respeitar o ritmo daquele bebê que recebi: uma menina doce, com uma necessidade imensa de colo, de atenção exclusiva, de mamar exaustivamente, de dormir grudada em mim. o berço virou objeto de decoração e minha cama o nosso ninho. nos primeiros meses sofri com isso, os braços doíam de dormir abraçada com a Mallu, eu acordava mais ou menos 5 vezes por noite pra amamentar, não conseguia ir ao banheiro durante o dia enquanto ela dormia porque todas as sonecas eram no meu colo, almoçava em pé ninando a pequena com um braço e usando o outro pra comer. nunca gostou de ficar no carrinho, se eu insistia logo vinha um escândalo, e a única forma de carregá-la era o colo ou o sling. chorei muitas vezes achando que estava cometendo algum erro, que não era possível que só eu seria premiada com um bebê tão "dependente" (e algum bebê nasce independente nesse mundo, gente?). pedia conselhos à quem achava valer a pena e me enfurecia com os palpites maldosos e pessimistas de quem ousava se intrometer. ainda que aquela maternidade que eu exercia no dia-a-dia não fosse nada parecida com tudo que li e ouvi antes de ser mãe, me recusava a desrespeitar as particularidades da minha filha.
  aos poucos percebi - e, o mais importante, aceitei - que simplesmente aquela era a Mallu. o bebê da propaganda que dorme quietinho no berço ou o recém-nascido da minha amiga que fica tranquilo e sozinho no carrinho não são melhores que ela, são apenas diferentes. e aquela que passava a maior parte do tempo descabelada e com olheiras, cheirando a leite e com os braços preenchidos por um bebê gordinho, era a mãe que eu escolhi ser. eu poderia ter escolhido deixá-la chorar pra "aprender", dar outro leite por praticidade, delegar os cuidados à outras pessoas - mas eu escolhi ser a mãe que ela merece que eu seja.
  é certo que quando nasce um bebê nasce também uma mãe, mas o que ninguém nos conta é que essa mãe não nasce pronta. o bebê recém-chegado ao mundo modifica todo o nosso universo particular, e temos que aprender no exercício do dia-a-dia a lidar com essas mudanças. a maternidade pode ser uma bênção mas pra isso é preciso aceitá-la de peito aberto.
  passei a ver com mais amor e empatia as necessidades da minha filha. entendi que algumas coisas precisarão ser adiadas, por pura questão de prioridade. abracei minha pequena na hora de dormir e me permiti sentir o cheirinho da sua pele, o contorno do seu corpinho grudado ao meu, o som da sua respiração tranquila. carregá-la no sling passou a ser uma forma de dividir com ela meu ponto de vista sobre a vida que nos cerca. os banhos abandonaram a banheira e foram para o chuveiro, pele com pele e um tetê de brinde. brincamos as duas sentadas no chão e conversamos usando os sons que ela me ensina, as palavrinhas que descobriu como falar. não tenho mais vontade de sair sem ela, pelo menos não agora. o tempo passa tão rápido e logo meu colo vai ser pequeno demais comparado ao mundo lá fora. encontrei o prazer em maternar da forma que tomei como minha, esqueci o lugar-comum da mãe que imaginei que seria.
  me permiti ser feliz na nossa díade mãe-filha, esqueci a idéia de que preciso me encaixar naquele modelo de mãe que vendem por aí. o resultado disso é uma mulher mais segura, uma mãe mais amorosa e uma filha mais feliz. Mallu é um bebê simpático, risonho, alegre. a cada nova fase de desenvolvimento vem conquistando mais autonomia e segurança, e sei que isso é reflexo da criação apegada que recebe. ela sabe dar carinho e sabe recusar o que não lhe agrada, deixando claro que, da forma inicialmente primitiva que tem domínio nesse momento, já entendeu que merece ser respeitada.
  tenho muito orgulho de todo esse caminho que percorremos até aqui - da chupeta que dei ainda na maternidade e joguei fora quando vi que não precisávamos dela, do abraço na madrugada aceitando a nossa cama compartilhada, do peito pra fora em qualquer lugar que seja pra matar a necessidade de fome ou de aconchego, de permitir que ela dê seus primeiros passinhos rumo a conhecer o mundo à sua volta, mostrando sempre que estou logo ali do lado.
  assim como ela nasceu de um parto em que trabalhos juntas e aprendeu a mamar enquanto eu aprendia a amamentar, sei que vamos continuar de mãos dadas e corações unidos em cada nova descoberta - ela como filha, eu como mãe, nós duas como apaixonadas que somos uma pela outra.
  ainda não fiz escolha melhor que respeitar e amar a pessoa-Mallu e a pessoa-Ana. formamos uma dupla e tanto.